
Atualizado em 20/10/2026
A promessa é boa: em vez de balancim, corda e andaime, um drone sobe com a mangueira e lava o vidro do décimo andar sem ninguém pendurado. Só que a fachada tem uma coisa que a lavagem de placa solar no meio do mato não tem: calçada, portaria e gente passando embaixo. E é isso que decide a regra do voo. Fui ao RBAC 100, ao único pregão público de limpeza de fachada com drone que encontrei no PNCP e ao que as empresas do ramo divulgam, para separar o que é preço, o que é lei e o que o síndico precisa pedir antes de assinar.
Por Irlen Menezes, cientista de dados formado pela PUC Minas, com experiência em legislação e regulação de drones no Brasil.
Resposta direta: limpar fachada com drone é permitido, mas na fachada quem decide a categoria da operação é a calçada, não o peso. A categoria aberta do RBAC 100 vale para drone de até 25 kg, em linha de visada, até 120 m e em área distante de terceiros, o que significa nunca menos de 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes, salvo barreira mecânica forte o bastante para protegê-las. Sem isolar a área, o voo sai da categoria aberta. Não encontrei preço público por metro quadrado: o pregão do Senac de Pernambuco para limpar 28.711,72 m² com drone teve orçamento sigiloso e o item terminou fracassado no PNCP.
Por que a calçada decide a regra do voo
O RBAC 100, o regulamento de drones da ANAC em vigor desde 16 de junho de 2026, divide as operações em três categorias. A aberta, onde cabe a maior parte dos serviços, tem quatro condições ao mesmo tempo: peso em voo de até 25 kg, voo em linha de visada (VLOS ou EVLOS), até 120 metros de altura e “em áreas distantes de terceiros, sob total responsabilidade do seu operador” (100.5(a)(1)).

E “área distante de terceiros” tem definição com número. O item 100.3(a)(2) diz que em nenhuma hipótese o drone pode ficar a menos de 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes com a operação, a não ser que haja uma barreira mecânica forte o bastante para protegê-las num acidente.
“Em nenhuma hipótese a distância da UA poderá ser inferior a 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes com a operação. O limite de 30 metros não precisa ser observado caso haja uma barreira mecânica suficientemente forte para isolar e proteger as pessoas não envolvidas e não anuentes na eventualidade de um acidente”
RBAC 100, item 100.3(a)(2)

Agora pense na fachada de um prédio de rua. O drone trabalha a poucos metros da parede, e a calçada fica logo abaixo. Quem passa ali não está envolvido nem concordou com a operação. Se a empresa não fecha a calçada e a entrada do prédio no trecho do voo, ou não tem uma proteção física de verdade, a condição de área distante de terceiros não fecha. E quando um dos requisitos da categoria aberta não é atendido, o RBAC 100 manda a operação para a categoria específica (100.5(a)(2)), que tem outro processo na ANAC.
O peso também pesa, literalmente. Drone de limpeza carrega bico, mangueira e às vezes água, e o limite da categoria aberta é o peso em voo. Como o peso muda o enquadramento e o orçamento está explicado em lavagem de placa solar com drone.
O que mais a lei pede do voo na fachada
- Avaliação de risco operacional: obrigatória na categoria aberta, atualizada nos 12 meses anteriores. Só fica facultativa se o voo estiver a mais de 150 metros de pessoas não envolvidas ou houver barreira (100.5(a)(1)(v)). Na fachada urbana, faça. O gerador de ARO monta o documento.
- Seguro: toda operação sob o RBAC 100 precisa de seguro com cobertura de danos a terceiros (100.37), e a exceção agrícola não se aplica aqui.
- Cadastro: drone de uso não recreativo acima de 250 g é cadastrado no SISANT e identificado com o número de cadastro (100.301).
- Pouso e decolagem: na categoria aberta, também em área distante de terceiros (100.27(b)(2)). O ponto de decolagem na calçada entra na conta.
- Espaço aéreo: desde 1º de julho de 2026 a ICA 100-40 exige autorização no SARPAS, do DECEA, para todo voo a céu aberto. A própria ICA define “operação no entorno de estrutura” como a feita até 5 metros acima da estrutura e até 30 metros afastada dela, que é exatamente o caso da fachada.

A regra dos 30 metros tem post próprio, com os casos de praça, show e obra, em distância mínima de pessoas.
Quanto custa: o que dá para saber com fonte
Procurei preço público e não achei um número confiável por metro quadrado. O único pregão de limpeza de fachada com drone no PNCP foi o do Senac de Pernambuco, aberto em 2025 para 28.711,72 m² em seis prédios de Recife, Paulista, Caruaru e Serra Talhada, com execução prevista de 2025 a 2028. O orçamento era sigiloso, e no PNCP o item aparece como “Fracassado”, sem resultado homologado. Não há preço para copiar dali.
| Prédio (Senac/PE) | Área de fachada | Ano previsto |
|---|---|---|
| Faculdade Senac (Recife) | 11.555,25 m² | 2025 |
| Complexo Caruaru | 7.069,81 m² | 2025 |
| UEP Paulista | 1.481,00 m² | 2025 |
| UEP Serra Talhada | 2.475,50 m² | 2026 |
| Edifício José de Anchieta (Recife) | 3.670,00 m² | 2027 |
| Edifício João Rodrigues Maia (Recife) | 2.460,16 m² | 2028 |
O que o mercado divulga é produtividade. Numa reportagem do SíndicoNet de maio de 2026, a empresa Urano Drone Wash comparou a limpeza com drone, que segundo ela chega a 250 m² por hora, com 20 m² por hora na escada e 30 m² por hora na plataforma motorizada, e disse que o custo por metro quadrado pode ser até 50% menor em alguns casos. São números da própria empresa, não de contrato público.
Para comparar orçamentos, peça o preço por metro quadrado e o total por fachada, e confira se estão incluídos o isolamento da calçada, a proteção dos aparelhos de ar-condicionado, o produto de limpeza e o deslocamento. Para quem está do outro lado e precisa precificar, o método está em quanto cobrar por voo de drone.
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O que o pregão do Senac pediu (e o que dá para aproveitar)
Mesmo sem preço, o termo de referência do Senac é um bom roteiro do que um contratante exige. A justificativa explica por que o drone foi escolhido: a limpeza com ancoragem exigiria cerca de 200 furos nas lajes de cobertura de um dos prédios, com risco de infiltração. E as obrigações da contratada são as que qualquer condomínio deveria copiar:
“8.1 É de responsabilidade da CONTRATADA o isolamento e sinalização das áreas de risco.”
Senac/PE, pregão 90021/2025, termo de referência, item 8.1

- Isolamento e sinalização das áreas de risco (item 8.1).
- Proteção das condensadoras de ar-condicionado durante a lavagem (8.1.2).
- Produtos adequados a cada revestimento, sem manchar (8.1.3 e 8.1.4).
- Reparo ou troca de qualquer bem danificado (8.1.6).
- Avaliação preliminar de riscos de cada prédio entregue 5 dias úteis antes do início (7.3.6).
O mesmo edital tem erros de norma que o síndico não deve repetir. Ele cita o RBAC-E 94, que foi substituído pelo RBAC 100 em 16 de junho de 2026, pede drone “homologado pela ANAC” e “autorizações de voos emitidas pela ANAC”. Drone comum não tem homologação de tipo na ANAC (quem homologa o rádio é a Anatel), e o acesso ao espaço aéreo é autorizado pelo DECEA, no SARPAS. Pedir documento que não existe pode afastar fornecedores; o PNCP não informa por que o item ficou fracassado.
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O checklist do síndico antes de contratar
- Documentos do drone: número do cadastro no SISANT e certificado de homologação da Anatel. Dá para conferir a homologação em dois minutos, como mostra como saber se um drone é homologado.
- Seguro: apólice com cobertura de danos a terceiros válida na data do serviço.
- Avaliação de risco do seu prédio: não serve um documento genérico. Ela tem de considerar a calçada, a garagem, a portaria e as janelas.
- Plano de isolamento: que trecho da calçada e da entrada fica fechado, por quanto tempo, e se há barreira física. Combine com os moradores o horário e o aviso de janelas fechadas.
- Autorização no SARPAS: para o dia e o local do serviço.
- Responsabilidade por danos: no contrato, quem paga vidro trincado, tinta descascada pelo jato e aparelho de ar-condicionado molhado.
Se o condomínio também quer regras para drone de morador, o caminho é a convenção, como explicado em síndico pode proibir drone no condomínio. E se a ideia é só inspecionar a fachada, sem lavar, o serviço é outro e está em drone para inspeção de telhado e fachada.

Para o piloto: dá dinheiro?
O pregão do Senac mostra que existe demanda institucional por esse serviço. O contratante pediu isolamento, avaliação de risco e responsabilidade por dano, e o item de 28 mil metros quadrados ficou sem resultado, por um motivo que o PNCP não informa. Quem quer entrar nesse nicho precisa de seguro, avaliação de risco feita prédio a prédio e um processo de isolamento da calçada que funcione. Os outros nichos que costumam pagar melhor estão em os nichos mais lucrativos de drone.

Perguntas frequentes
Limpeza de fachada com drone é permitida?
É, desde que a operação cumpra o RBAC 100. Na categoria aberta, o drone precisa ter até 25 kg em voo, voar em linha de visada, até 120 m e em área distante de terceiros, com avaliação de risco, seguro e autorização no SARPAS.
Precisa isolar a calçada para limpar fachada com drone?
Para ficar na categoria aberta, sim. O RBAC 100 (100.3(a)(2)) proíbe ficar a menos de 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes, salvo se houver barreira mecânica forte o bastante para protegê-las.
Quanto custa limpar fachada com drone?
Não há preço público por metro quadrado confiável. O único pregão encontrado no PNCP, do Senac/PE para 28.711,72 m², teve orçamento sigiloso e terminou fracassado. Empresas do ramo dizem que o custo por m² pode ser até 50% menor que o tradicional, mas o número é da própria empresa.
Quantos metros quadrados o drone limpa por hora?
Segundo a empresa Urano Drone Wash, ouvida pelo SíndicoNet em maio de 2026, até 250 m² por hora, contra 20 m² por hora na escada e 30 m² por hora na plataforma motorizada.
Que documentos o síndico deve pedir à empresa?
Cadastro do drone no SISANT, homologação da Anatel, apólice de seguro com danos a terceiros, avaliação de risco do prédio, plano de isolamento da calçada, autorização no SARPAS e cláusula de responsabilidade por danos.
Drone de limpeza acima de 25 kg pode voar?
Pode, mas não na categoria aberta. Acima de 25 kg em voo, a operação vai para a categoria específica do RBAC 100, com outro processo junto à ANAC.
Leituras relacionadas
- Lavagem de placa solar com drone
- Drone para inspeção de telhado e fachada
- A regra dos 30 metros
- Síndico pode proibir drone no condomínio?
- Seguro RETA: o que é obrigatório
Fontes consultadas
- RBAC 100 (Resolução ANAC nº 805/2026): itens 100.3(a)(2), 100.5, 100.27, 100.37 e 100.301.
- ICA 100-40 (DECEA, 2026): definição de operação no entorno de estrutura (art. 7º, XLII).
- Senac/PE, pregão eletrônico 90021/2025, PNCP: termo de referência (itens 2.3, 6.3, 6.5.5, 7.2.7, 7.3.6, 8.1 a 8.1.6) e situação do item (Fracassado, orçamento sigiloso), consulta em 02/10/2026.
- SíndicoNet, reportagem de 29/05/2026: produtividade informada pela Urano Drone Wash.






