
Atualizado em 06/10/2026
Quem mora perto de praia de vento já viu a cena: o kitesurfista sai da água, pergunta quem estava com o drone e quer o vídeo. Daí para virar serviço é um passo. O canal CursoDrone publicou em março um vídeo justamente sobre isso, “Como usar o drone para filmar esportes aquáticos, tipo kite surf”, e a pergunta que fica depois do encanto é outra: dá para ganhar dinheiro com isso dentro da lei? O atleta está a 30 metros, tem banhista na beira, tem escola de kite na areia. Juntei aqui o que a ANAC, o DECEA e o Código Civil dizem para esse cenário, e como montar o preço sem chutar.
Por Irlen Menezes, cientista de dados formado pela PUC Minas, com experiência em legislação e regulação de drones no Brasil.
Resposta direta: dá, e a lei ajuda mais do que parece. A ANAC tem a figura da pessoa anuente: quem concorda expressamente pode ter o drone voando perto de si, por sua conta e risco. O kitesurfista que contratou a filmagem pode ser anuente; o banhista ao lado, não. Com drone acima de 250 g, o voo a trabalho cai no RBAC 100, e o drone não pode ficar a menos de 30 metros de quem não está na operação nem consentiu. Some cadastro, seguro, SARPAS para cada voo e autorização de uso da imagem do atleta por escrito. O preço sai do seu custo por sessão, não de tabela: não encontrei fonte pública confiável de preço de filmagem de kitesurf.
Quem paga por vídeo de kitesurf
O mercado não é só o atleta que quer o próprio vídeo. Na praia de vento, os compradores costumam ser quatro: o praticante que quer registrar a sessão, a escola de kite que precisa de material para divulgar aula e pacote, a pousada ou o hotel que vende a experiência, e a marca ou o evento que precisa de imagem de competição. Cada um compra uma coisa diferente, e isso muda o formato de cobrança, como mostro no fim.
Uma diferença pesa logo na largada: quando você filma o seu próprio amigo por diversão, o voo é lazer. Quando alguém paga, o voo vira trabalho, e o drone acima de 250 g sai da Resolução 806 e entra no RBAC 100. É aí que muita gente se complica sem perceber.
A regra que decide o plano: o atleta pode consentir, o banhista não
O RBAC 100 define pessoa anuente (item 100.3(a)(11)): alguém cuja presença é dispensável para o voo, mas que, por vontade própria e por sua conta e risco, concorda expressamente que o drone opere perto dela. A nota do próprio regulamento explica o porquê: o cidadão tem o direito de assumir o próprio risco. O atleta que encomendou o vídeo se encaixa aqui, desde que concorde de forma expressa. Na prática, isso é uma autorização por escrito, antes do voo.
Para todo o resto, vale a área distante de terceiros (item 100.3(a)(2)): em nenhuma hipótese o drone pode ficar a menos de 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes, salvo barreira física capaz de protegê-las. E a avaliação de risco operacional, obrigatória na categoria aberta, só fica facultativa se o voo acontecer a mais de 150 metros de pessoas não envolvidas e não anuentes (item 100.5(a)(1)(v)(B)).

E o drone de até 250 g? Ele fica fora do RBAC 100 enquanto voar até 120 metros e à vista, mesmo a trabalho (item 100.1(e)), e cai na Resolução 806. Ali, o art. 4º não traz a distância de 30 metros, mas o art. 13 proíbe operar de forma descuidada ou negligente, colocando em risco vidas de terceiros. Se o drone cair na cabeça de alguém, a responsabilidade é sua do mesmo jeito. O que muda, no sub-250 g, é a papelada, não o cuidado.

Tem ainda o risco que nenhuma norma desenha mas que derruba drone toda semana em praia de vento: a linha do kite, fina, comprida e quase invisível na tela. O que fazer com ela está em drone em Cumbuco e Canoa Quebrada.

Os papéis quando o voo vira trabalho
Formalmente, o RBAC 100 (item 100.1(e)) dispensa do cadastro ANAC o drone de até 250 g operado até 120 m em linha de visada. Na prática, desde 1º de julho de 2026 a ICA 100-40 exige autorização SARPAS para todo voo a céu aberto, inclusive sub-250 g, e o SARPAS pede o número do SISANT: quem voa fora de casa acaba cadastrando de qualquer forma.
Acima de 250 g e a trabalho, o pacote do RBAC 100 entra inteiro: cadastro da aeronave (100.301), seguro (100.37), avaliação de risco quando o voo fica a menos de 150 metros de terceiros e, a partir de 1º de janeiro de 2027, o exame teórico (100.13(b)), que a Resolução ANAC 805/2026 dispensa até 31 de dezembro de 2026 (art. 2º, parágrafo único). O SARPAS vale para os dois casos e para cada sessão. Os prazos estão em quanto tempo demora a aprovação do SARPAS.
Uma dica que é lei e não conselho: a Resolução 806 (art. 18) e o RBAC 100 (100.25) pedem que você só decole se, com o vento conhecido, houver bateria para voltar e pousar no lugar previsto. Praia de kite é praia de vento forte, e o drone que vai a favor do vento volta contra ele.
Praia com APA ou parque: Cumbuco, Cauípe e Jericoacoara
Os melhores picos de kite do Ceará estão dentro ou ao lado de unidades de conservação. A lagoa do Cauípe, perto de Cumbuco, está na APA do Lagamar do Cauípe, uma área de proteção ambiental estadual criada pelo Decreto 24.957/1998 e administrada pela SEMA. Jericoacoara é parque nacional, sob o ICMBio, com regras próprias que resumi em drone em Jericoacoara. E em Fortaleza, a Sabiaguaba e o Parque do Cocó têm camadas municipais e estaduais, explicadas em pode voar drone em Fortaleza.
A lição desses casos serve para qualquer praia: unidade de conservação soma regra, não substitui a da ANAC e a do DECEA. Parque costuma exigir autorização para filmagem comercial, e APA depende da norma de criação e da gestão. Antes de vender pacote num lugar desses, pergunte ao órgão gestor e guarde a resposta.
Sobre o mar: decolagem, barco e o drone que cai na água
Filmar kite é voar sobre a água o tempo todo, e o drone precisa continuar à vista: sem referência no mar, um drone pequeno some muito antes do que parece. Quem filma de barco ou lancha acompanhando o atleta tem regras e técnicas próprias, que estão em voar drone de barco, lancha ou navio. E se o pior acontecer, o protocolo de recuperação e o que o seguro cobre estão em drone caiu no mar.
Será que você passaria na prova da ANAC?
O RBAC 100 tornou o exame teórico da ANAC obrigatório para pilotos de drone acima de 250 g — é grátis, online e tem prazo de transição até o fim de 2026. Chegue preparado.
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A imagem do atleta e de quem está em volta
O vídeo é do atleta, mas a imagem dele é dele. O art. 20 do Código Civil permite que a pessoa proíba o uso da própria imagem, sem prejuízo de indenização, quando ele se destina a fins comerciais. E a Súmula 403 do STJ diz que a indenização pela publicação não autorizada de imagem com fins econômicos ou comerciais independe de prova do prejuízo. Para quem vende vídeo, isso tem consequência direta: postar o atleta no seu portfólio, vender o clipe para a escola ou para a marca, tudo pede autorização por escrito.

Os terceiros que aparecem reconhecíveis no fundo pedem o mesmo cuidado no uso comercial. Desfocar ou cortar resolve. A autoria do vídeo é outra conversa: quem filma é autor da obra, e o que o cliente pode fazer com ela precisa estar no contrato. Os detalhes estão em direitos autorais de foto e vídeo aéreo, LGPD para quem trabalha com drone e no modelo de contrato de prestação de serviço. Uma cláusula vale ouro aqui: a anuência do atleta ao voo perto dele, que a ANAC exige expressa, pode ir no mesmo documento da autorização de imagem.

Como cobrar sem chutar preço
Procurei preço público de filmagem de kitesurf com drone, em contratação de órgão público ou pesquisa com método, e não achei. Tabela de rede social não serve de referência, então não vou publicar número. O que dá para fazer com segurança é montar o seu preço pelo custo, e escolher o formato pelo tipo de cliente.
- Custo da sessão: deslocamento, tempo na praia, ciclos de bateria, horas de edição (quase sempre maiores que as de voo) e, acima de 250 g, a parte do seguro que cabe naquele dia.
- Custo fixo dividido: desgaste do drone, cartão, cadastro, contador e imposto. Quem emite nota precisa somar isso, e o caminho do MEI está em nota fiscal e impostos do piloto.
- Margem: o quanto você quer ganhar por hora de trabalho, contando edição.
- Formato: a mesma conta vira preço por sessão, por pacote ou por clipe.
O método completo, com a planilha de custo por hora de voo, está em quanto cobrar por um voo de drone, e os formatos de entrega de foto e filmagem em fotografia e filmagem aérea com drone. Para conseguir os primeiros clientes na praia, o portfólio é o atalho: veja portfólio e marketing para piloto de drone.
Perguntas frequentes
Posso voar drone perto do kitesurfista que estou filmando?
Pode, se ele concordar expressamente. O RBAC 100 chama isso de pessoa anuente (100.3(a)(11)): quem aceita, por conta e risco, que o drone opere perto de si. Faça a anuência por escrito, antes do voo.
Seu drone passaria numa fiscalização?
Um fiscal conduz a entrevista pelo chat, uma pergunta por vez: peso, cadastro, etiqueta, SARPAS, ANATEL e seguro.
No fim você recebe o laudo com exatamente o que falta para regularizar.
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Qual a distância mínima do drone para banhistas na praia?
Para drone acima de 250 g, 30 metros horizontais de pessoas não envolvidas e não anuentes (RBAC 100, 100.3(a)(2); Resolução 806, art. 2º, III). A avaliação de risco só fica facultativa a mais de 150 metros (100.5(a)(1)(v)(B)).
Drone de até 250 g pode filmar kitesurf a trabalho sem cadastro?
Formalmente, o RBAC 100 dispensa o cadastro do drone de até 250 g até 120 m e à vista. Mas o SARPAS é obrigatório para todo voo desde 1º de julho de 2026 e só mostra aeronaves que vêm do SISANT, então na prática o cadastro acontece.
Preciso de seguro para filmar kitesurf com drone?
Se o drone tem mais de 250 g e o voo é a trabalho, sim: o RBAC 100 exige seguro (100.37). Até 250 g dentro do envelope de 120 m e linha de visada, a Resolução 806 dispensa (art. 29).
Preciso de autorização do atleta para vender o vídeo?
Sim. O art. 20 do Código Civil protege a imagem usada com fins comerciais, e a Súmula 403 do STJ dispensa a prova do prejuízo para indenizar quem teve a imagem publicada sem autorização com fim econômico.
Quanto cobrar para filmar kitesurf com drone?
Não encontrei fonte pública confiável com preço de filmagem de kitesurf. O caminho seguro é calcular o custo da sessão (deslocamento, baterias, edição, seguro), somar o custo fixo e a margem, e escolher o formato: sessão, pacote, clipe, diária ou contrato mensal.
Pode filmar kitesurf com drone em Jericoacoara ou no Cauípe?
Jericoacoara é parque nacional, com regras do ICMBio, e o Cauípe fica na APA do Lagamar do Cauípe, estadual. Em unidade de conservação, a regra do órgão gestor se soma às da ANAC e do DECEA. Pergunte antes de vender o serviço ali.
Preciso de SARPAS para cada sessão de filmagem?
Precisa de autorização para cada voo, no local e no horário pedidos. Você pode cadastrar até 16 períodos numa mesma solicitação no SARPAS, o que ajuda em semana de vento bom.
Leituras relacionadas
- Quanto cobrar por um voo de drone
- Fotografia e filmagem aérea com drone
- Drone em Cumbuco e Canoa Quebrada
- Drone em Jericoacoara
- Voar drone de barco, lancha ou navio
- Drone caiu no mar: o que fazer
- Pode voar drone em Fortaleza?
Fontes consultadas
- ANAC, RBAC nº 100: itens 100.1(e), 100.3(a)(2) e (11), 100.5(a)(1)(v)(B), 100.13(b), 100.25, 100.37 e 100.301.
- ANAC, Resolução nº 806/2026: arts. 2º, 4º, 13, 18 e 29.
- ANAC, Resolução nº 805/2026: art. 2º, parágrafo único (exame teórico exigido a partir de 01/01/2027).
- DECEA, ICA 100-40: art. 19, § 4º.
- Código Civil (Lei nº 10.406/2002): art. 20.
- STJ, Súmula 403.
- SEMA-CE, APA do Lagamar do Cauípe: Decreto Estadual nº 24.957/1998.
- CursoDrone, “Como usar o drone para filmar esportes aquáticos, tipo kite surf” (YouTube, 15/03/2026).
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