
Atualizado em 16/09/2026
Todo mundo sabe o que BVLOS significa; quase ninguém sabe o que precisa fazer na segunda-feira para voar assim de forma legal. Inspeção de linha de transmissão, duto, ferrovia, entrega e mapeamento de grande área esbarram no mesmo ponto: o piloto para de ver o drone. Este post é o caminho operacional, com os artigos que sustentam cada passo, os prazos que o DECEA impõe e o único caso brasileiro que já chegou ao fim da trilha.
Resposta direta: BVLOS tira a operação da categoria aberta e a coloca na categoria específica do RBAC 100, e a partir daí são duas autorizações em paralelo. Na ANAC, a operação só pode acontecer cumprindo um cenário padrão publicado pela Agência ou com avaliação de risco aceita e autorização operacional (100.103), com projeto do drone autorizado (100.105), piloto com licença e habilitação na categoria específica ou piloto comercial IFR (100.115), certificado de aeronavegabilidade salvo dispensa em cenário padrão (100.201) e, quando a complexidade pedir, o COE. No DECEA, BVLOS é operação em espaço aéreo segregado, divulgada por NOTAM (ICA 100-40, art. 25), com pedido no SARPAS com oito dias corridos de antecedência (art. 57, III), autorização de até 90 dias prorrogável por 60 (art. 65) e, em Zona UTM, área de até 30 km² e uma hora de voo (art. 59). Óculos FPV sem observador já conta como BVLOS (art. 24, § 1º). O caso real: a Speedbird Aero levou de abril de 2024 (autorização de projeto do DLV-2) a 16 de março de 2026 (autorização para voar BVLOS sobre áreas de até 5.000 habitantes por km²).
A resposta rápida: você está em BVLOS?
O RBAC 100 define BVLOS por exclusão: é a operação que não atende às condições de VLOS nem de EVLOS. VLOS é o piloto vendo o drone a olho nu; EVLOS é o piloto com observadores que mantêm o contato visual e comunicação direta e constante. A ICA 100-40 acrescenta duas armadilhas no art. 24: usar óculos FPV ou estender a visada sem observador caracteriza BVLOS. Quem voa FPV sozinho já está do outro lado da linha sem saber.
Os conceitos com exemplos estão em VLOS, EVLOS e BVLOS: a diferença. Daqui em diante o assunto é o que fazer quando a resposta é BVLOS.
O lado da ANAC: categoria específica, passo a passo
A seção 100.5 do RBAC 100 coloca na categoria aberta só a operação com peso em voo até 25 kg, em VLOS ou EVLOS, até 120 m e em áreas distantes de terceiros. Falhou um item, a operação é específica (100.5(a)(2)), e a Subparte B passa a valer. O art. 100.103 dá os dois caminhos: cumprir um cenário padrão publicado pela ANAC, com critérios já definidos, ou submeter a operação a uma avaliação de risco por método aceito pela Agência e obter autorização operacional. O método que a ANAC adota como referência é o SORA, que descrevi em SORA: a análise de risco para drone.

Três detalhes que decidem o orçamento. O projeto do drone precisa ser autorizado pela ANAC para a operação pretendida (100.105), salvo se a aeronave tiver certificado de tipo ou o cenário padrão dispensar; um DJI de prateleira não traz essa autorização de fábrica. O piloto precisa, além do exame teórico da ANAC, de licença de piloto remoto com habilitação na categoria específica, ou de licença de piloto comercial com IFR vigente, ou de cumprir o cenário padrão (100.115), e a própria seção admite dispensa conforme o risco. E a aeronave em categoria específica precisa de certificado de aeronavegabilidade, CAVE ou AEV, exceto se o cenário padrão disser o contrário (100.201).
“(a) Somente é permitido operar uma UA na categoria específica se o piloto remoto, adicionalmente ao previsto na seção 100.13: (1) possuir licença de piloto comercial com habilitação IFR vigente; (2) cumprir o especificado em um cenário padrão; ou (3) possuir licença de piloto remoto com habilitação na categoria específica emitida pela ANAC.”
RBAC 100, seção 100.115(a)

Os registros de todos os voos passam a ser obrigatórios em formato aceitável pela ANAC (100.19(d)), a intervenção do piloto tem que ser possível em qualquer fase do voo (100.19(c)), o que exclui a aeronave autônoma, e o COE, o cadastro de operador da Subparte F, entra quando a complexidade da operação ou o cenário padrão o exigirem. A anatomia completa da categoria está em categoria específica do RBAC 100.
O lado do DECEA: espaço segregado, oito dias e NOTAM
A autorização da ANAC não abre o espaço aéreo. A ICA 100-40 trata BVLOS no art. 25 como operação realizada mediante segregação do espaço aéreo, ao lado dos voos acima de 120 m e das aeronaves com mais de 25 kg, e condiciona tudo à divulgação por produto AIS, na prática um NOTAM. O art. 40 lista BVLOS entre os requisitos analisados na categoria específica, e o art. 57 fixa o prazo: oito dias corridos de antecedência para a solicitação no SARPAS.
“III – oito dias corridos: a) categoria específica ou certificada: 1. PMD maior que 25 Kg; 2. BVLOS; 3. acima de 400 pés; ou 4. com ou sem interseção com EAC classificado como TRA, TSA e área restrita ou FRZ;”
ICA 100-40 (2026), art. 57, inciso III

O art. 65 permite autorização com período de noventa dias e emissão de NOTAM, estendível por sessenta dias se pedida com oito dias de antecedência e com parecer favorável da Organização Regional. O art. 59 cuida das Zonas UTM, onde BVLOS fica limitado a uma área circular de 30 km² e uma hora por voo. E o art. 19, § 2º, fecha uma porta que o marketing abre: aeronaves autônomas não são objeto da norma e não estão autorizadas a acessar o espaço aéreo. BVLOS legal é pilotado a distância, com intervenção possível. O que é espaço segregado e como o NOTAM funciona estão em espaço aéreo segregado e preciso de NOTAM para voar drone?.

O que muda de verdade entre VLOS e BVLOS
| Item | VLOS (aberta) | BVLOS (específica) | Base |
|---|---|---|---|
| Autorização da ANAC | Não há; regras gerais | Cenário padrão ou risco + autorização operacional | RBAC 100.103 |
| Drone | Qualquer, até 25 kg | Projeto autorizado, certificado de tipo ou cenário | RBAC 100.105 |
| Piloto | Exame teórico | Licença com habilitação específica, PC IFR ou cenário | RBAC 100.13 e 100.115 |
| Aeronavegabilidade | Não exigida | CAVE ou AEV, salvo cenário padrão | RBAC 100.201 |
| Espaço aéreo | SARPAS 30 min | Segregado, NOTAM, 8 dias | ICA 100-40, arts. 25 e 57 |
| Duração da autorização | Por voo | Até 90 dias + 60 | ICA 100-40, art. 65 |
| Seguro | Obrigatório | Obrigatório | RBAC 100.37 |
O caso que chegou ao fim da trilha: Speedbird Aero
A referência brasileira é a Speedbird Aero, de Franca (SP). Em abril de 2024 a empresa divulgou a autorização de projeto do drone DLV-2, com capacidade de carga de até 6,5 kg e alcance BVLOS de até 24 km, a etapa da seção 100.105. Em 16 de março de 2026 a ANAC concedeu à empresa a autorização para operar os DLV-2 além da linha de visada sobre áreas com densidade de até 5.000 habitantes por km², segundo o portal Unmanned Airspace, que registra a leitura do setor: a ANAC passou de aprovações por rota para operações escaláveis. No mesmo mês a empresa anunciou rodada de quase US$ 6 milhões com o iFood entre os investidores.
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A lição para quem planeja inspeção ou mapeamento não é copiar a Speedbird, é ler a ordem: primeiro o projeto do drone, depois a operação em cenário restrito, e só então a escala. Como a entrega funciona no dia a dia está em entrega por drone do iFood com a Speedbird.

Quanto custa e quanto tempo leva, sem romance
Não existe tabela oficial de preço para BVLOS, e desconfie de quem promete a autorização em semanas. O que dá para dimensionar são os blocos de trabalho: a avaliação de risco (SORA) exige documentação de operação, mitigações e treinamento; a autorização de projeto depende do fabricante fornecer dados técnicos e, para drone que não é de fabricante parceiro, pode ser inviável; a licença específica do piloto passa por processo próprio na ANAC; e o certificado de aeronavegabilidade tem taxa e vistoria. Com tudo aprovado, cada área nova é um pedido de segregação de oito dias no DECEA, renovado a cada 90 dias.
RBAC 100, seção 100.105
O erro mais caro
Comprar o drone antes de saber se o fabricante fornece o que a seção 100.105 pede. Sem projeto autorizado, o resto da trilha não começa, e o equipamento vira um drone VLOS caro.
ICA 100-40, art. 24, § 2º
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Quando BVLOS não compensa
Corredor curto, área que cabe em EVLOS com dois observadores, ou serviço pontual: a categoria aberta com observadores costuma resolver em um dia o que o BVLOS resolve em meses. BVLOS é para operação recorrente, de escala, com cliente que paga a estrutura.
Para o enquadramento geral da norma, o guia da ICA 100-40 e o hub drone.irlenmenezes.com.br.
Perguntas frequentes
O que é BVLOS no RBAC 100?
É a operação que não atende às condições de VLOS nem de EVLOS (seção 100.3). Se o piloto não vê o drone a olho nu e não há observador com contato visual, é BVLOS.
Voar com óculos FPV é BVLOS?
Sem observador, sim. A ICA 100-40 (art. 24, § 1º) diz que o uso de óculos FPV ou a visada estendida sem observador caracterizam BVLOS.
Preciso de autorização da ANAC para BVLOS?
Sim. BVLOS coloca a operação na categoria específica, que só pode ocorrer cumprindo cenário padrão da ANAC ou com avaliação de risco aceita e autorização operacional (100.103).
Quais os prazos no DECEA para BVLOS?
Oito dias corridos de antecedência no SARPAS (art. 57, III), autorização de até 90 dias com NOTAM, prorrogável por 60 se pedida 8 dias antes do fim (art. 65).
Meu DJI Mavic pode voar BVLOS?
Só com projeto autorizado pela ANAC para a operação (100.105) ou cenário padrão que dispense. O drone de prateleira não traz essa autorização de fábrica.
Que licença o piloto precisa para BVLOS?
Licença de piloto remoto com habilitação na categoria específica, ou licença de piloto comercial com IFR vigente, ou cumprir cenário padrão (100.115), além do exame teórico (100.13).
O que é COE?
Cadastro de Operador de UA na categoria específica (Subparte F), exigido quando a complexidade da operação ou o cenário padrão preveem, ou quando a ANAC julgar necessário.
Drone autônomo pode fazer BVLOS?
Não. A ICA 100-40 (art. 19, § 2º) não autoriza aeronaves autônomas no espaço aéreo, e o RBAC 100 exige intervenção do piloto possível em qualquer fase (100.19(c)).
O que é Zona UTM e como ela limita BVLOS?
Em Zona UTM, BVLOS fica limitado a área circular de 30 km² e uma hora por voo (art. 59).
Existe cenário padrão publicado para BVLOS?
O cenário padrão é emitido por Instrução Suplementar da ANAC. Confira a página de drones da Agência antes de montar o processo; sem cenário, vale o caminho completo de risco e autorização.
Quanto tempo a Speedbird levou?
Da autorização de projeto do DLV-2 (abril de 2024) ao BVLOS sobre áreas de até 5.000 hab/km² (16 de março de 2026), quase dois anos, passando por waivers rota a rota.
BVLOS precisa de seguro?
Sim. O seguro de danos a terceiros do RBAC 100.37 vale para qualquer categoria, e a apólice precisa cobrir a operação BVLOS declarada.
Leituras relacionadas
- VLOS, EVLOS e BVLOS: a diferença
- Categoria específica do RBAC 100: como conseguir a autorização
- SORA: análise de risco para drone
- Espaço aéreo segregado: quando preciso
- Preciso de NOTAM para voar drone?
- Entrega por drone do iFood com a Speedbird
- Inspeção de linhas de transmissão com drone
- RBAC 100: o que muda
Fontes consultadas
- RBAC 100 (Resolução ANAC 805/2026), PDF oficial: seções 100.3, 100.5, 100.19, 100.103, 100.105, 100.115, 100.201, 100.37 e Subparte F.
- ICA 100-40 (DECEA), edição 2026, PDF oficial: arts. 19 (§ 2º), 24, 25, 40, 57, 59 e 65. Canônica: publicacoes.decea.mil.br.
- ANAC, página de drones: onde as Instruções Suplementares com cenários padrão são publicadas.
- Unmanned Airspace, 23/03/2026: autorização de 16/03/2026 para BVLOS sobre áreas de até 5.000 hab/km² e rodada de quase US$ 6 milhões.
- Aviation International News, 20/03/2026: ANAC passa de aprovações por rota a operações escaláveis.
- MundoGEO, 22/04/2024: autorização de projeto do DLV-2, carga de até 6,5 kg e BVLOS de até 24 km.
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