
Atualizado em 05/08/2026
A ANAC publica a base inteira de drones cadastrados do Brasil em dados abertos, atualizada todo dia, de graça e sem cadastro. É um dos arquivos públicos mais ricos do país sobre um setor inteiro. E é também um dos mais fáceis de ler errado: quase toda estatística de drone que circula por aí sai desse arquivo com pelo menos um defeito de método. Depois de apurar essa base algumas vezes, mapeei as quatro armadilhas que aparecem sempre.
Resposta direta antes do detalhamento: o arquivo é o SISANT.csv, publicado em sistemas.anac.gov.br/dadosabertos, com uma pasta de histórico mensal desde agosto de 2022. As quatro armadilhas são: (1) contar peso sem saber que 52.192 cadastros declararam exatamente 0,25 kg por arredondamento; (2) contar modelo sem normalizar grafia, num campo com mais de 10.900 escritas diferentes; (3) contar frota sem separar os enxames de show de luz, que somam 7.883 aeronaves em pouquíssimas empresas; e (4) comparar números antes e depois de março de 2025, quando o arquivo deixou de listar cadastros vencidos e encolheu 61.337 registros de um mês para o outro sem que nada tivesse acontecido no mercado.
Onde estão os dados, exatamente
Antes das armadilhas, o mapa. A ANAC mantém um portal de dados abertos e, dentro dele, uma pasta de drones cadastrados. São dois recursos:
- O arquivo corrente,
SISANT.csv, com todos os cadastros vigentes. Tem cerca de 29 MB e é republicado diariamente. A primeira linha traz o carimbo de data, no formatoAtualizado em: AAAA-MM-DD, e é dela que sai a data de referência de qualquer apuração séria. - A pasta de histórico, com um retrato mensal. Na data desta apuração eram 49 arquivos, o mais antigo de agosto de 2022.
O arquivo é separado por ponto e vírgula, com aspas, em UTF-8. As colunas são: código da aeronave, data de validade, operador, CPF ou CNPJ, tipo de uso, fabricante, modelo, número de série, peso máximo de decolagem e ramo de atividade.

Erro 1: contar o peso como se o formulário fosse uma balança
O campo de peso máximo de decolagem é preenchido à mão, em quilos. O valor mais declarado da base inteira é exatamente 0,25, com 52.192 cadastros. O segundo é 0,249, com 21.149.
Os dois descrevem o mesmo objeto: um drone leve, de 248 ou 249 gramas. A diferença é só quem arredondou. Só que a linha dos 250 gramas é a fronteira regulatória mais importante do setor, e um filtro que procura o que é menor que 0,250 descarta os 52 mil que arredondaram.
O tamanho do estrago: existem 81.683 aeronaves na base cujo modelo é sub-250 g de fábrica, mas apenas 36,3% declararam um valor abaixo de 0,250. Ou seja, 52.021 drones leves aparecem como se fossem mais pesados.
Como corrigir: nunca reporte contagem de sub-250 g apenas pelo campo de peso. Cruze com o modelo, e declare a ressalva. Eu detalho o caso inteiro em por que a linha dos 250 gramas não dá para medir.
Erro 2: contar modelo sem normalizar a grafia
O campo de modelo também é livre, e o resultado é previsível: são mais de 10.900 escritas distintas para um universo de algumas centenas de produtos reais. O campo de fabricante é ainda pior, com mais de 3.500 variações, incluindo modelo digitado no lugar da marca.
O exemplo que melhor mostra o problema é o DJI Mini 4 Pro. Ele aparece como “Mini 4 Pro”, “Dji Mini 4 Pro”, “Dji Mini 4 Pro ( Rc 2)”, com o nome do combo colado, e grudado sem espaço em “Mini4Pro” e “Mini 4Pro”. Só a grafia “Dji Mini 4Pro Fly More Combo Plus” responde por 1.204 aeronaves.
Contadas separadamente, nenhuma dessas escritas entra no pódio nacional. Somadas, viram 14.245 cadastros e o segundo lugar do país.
Erro 3: confundir frota com mercado
Se você ordenar a base por quantidade e olhar os maiores operadores, vai encontrar nomes desconhecidos com milhares de aeronaves cada. O maior deles tem 1.912 drones num único CNPJ.
Não são frotas de serviço. São enxames de show de drones de luz, aqueles espetáculos noturnos com centenas de aparelhos em formação. Conferindo o ramo de atividade declarado, 100% desses cadastros estão em aeropublicidade e aerodemonstração.
Somando os modelos típicos de enxame, são 7.883 aeronaves concentradas em pouquíssimas empresas. Elas são drones de verdade e estão corretamente cadastradas, mas não representam piloto nem operação: representam estoque de espetáculo. Um ranking de estados por frota, por exemplo, elegeria o estado que sediou o maior show.
Como corrigir: use número de empresas como métrica principal, não número de aeronaves, e apresente a frota à parte, segregando os ramos de enxame.
Erro 4: comparar 2024 com 2026 sem saber da troca de critério
Esse é o mais perigoso, porque produz uma manchete falsa e convincente.
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Entre fevereiro e março de 2025, a base publicada cai de 185.034 para 123.697 registros. São 61.337 a menos, ou 33,2%, em trinta dias. Parece um colapso do mercado brasileiro de drones. Não é.
O que mudou foi o critério do arquivo: até fevereiro de 2025 o SISANT publicado incluía cadastros vencidos, e de março em diante passou a listar apenas os vigentes. A frota não sumiu, o passivo saiu da vitrine. E a limpeza foi desigual: o uso recreativo perdeu 42,2% contra 25,3% do não recreativo.
| Mês | Registros no arquivo | O que aconteceu |
|---|---|---|
| fev/2025 | 185.034 | último arquivo incluindo vencidos |
| mar/2025 | 123.697 | primeiro arquivo só com vigentes |
| diferença | -61.337 | troca de critério, não de mercado |
O checklist de quem vai publicar um número
Se você é jornalista, pesquisador, professor ou só quer postar um dado correto, este é o mínimo:
- Diga a data da base. O arquivo muda todo dia. Um número sem data de referência é impossível de conferir.
- Diga se você normalizou modelo e fabricante, e como. Sem isso, todo ranking é suspeito.
- Separe os enxames em qualquer conta de frota.
- Não cruze a fronteira de março de 2025 sem avisar.
- Não converta peso declarado em realidade física sem a ressalva do arredondamento.
- Nunca publique dado pessoal. A base traz nome de operador e documento; CPF vem mascarado, e não há motivo legítimo para expor operador individual numa estatística.

Onde eu publico os números já tratados
Aplicar essas quatro correções em 177 mil linhas dá trabalho, e refazer isso a cada nova publicação da ANAC dá mais trabalho ainda. Por isso eu mantenho o Observatório do Drone no Brasil: uma página com os cortes já limpos, atualizada a cada base nova, com tabela em HTML para copiar, metodologia declarada e um bloco de como citar.
É de graça e é para ser usado. Se você for citar qualquer número, só peço o crédito com link. E se precisar de um recorte que não está lá, me chame que eu apuro.
Perguntas frequentes
Onde baixar os dados abertos de drones da ANAC?
No portal de dados abertos da ANAC, em sistemas.anac.gov.br/dadosabertos, na pasta de drones cadastrados. O arquivo corrente é o SISANT.csv, republicado diariamente, e existe uma pasta de histórico com um retrato mensal desde agosto de 2022.
A base do SISANT é pública e gratuita?
Sim. É um arquivo aberto, sem cadastro e sem custo, publicado pela própria ANAC. Ele traz os cadastros vigentes de aeronave não tripulada, com modelo, peso declarado, ramo de atividade e validade.
Por que as estatísticas de drone que circulam por aí divergem tanto?
Porque quase todas saem da mesma base sem tratamento. As divergências mais comuns vêm de não normalizar as grafias de modelo, não separar os enxames de show de luz, ler o peso declarado como se fosse medido e comparar períodos antes e depois da mudança de critério de março de 2025.
A base tem a data em que cada drone foi cadastrado?
Não. Só existe a data de validade. Dá para derivar a data de cadastro subtraindo 24 meses, que é o prazo de validade, mas isso só é confiável dentro da janela dos últimos dois anos, porque o arquivo lista apenas cadastros vigentes.
Dá para saber em que estado está cada drone?
Só parcialmente. Não há campo de UF, e o CPF vem mascarado. A localização só é possível para pessoa jurídica, cruzando o CNPJ com a base da Receita, o que cobre pouco menos de um quarto dos registros.
Posso usar esses números em uma matéria ou trabalho acadêmico?
Sim, a fonte é pública. Recomendo declarar a data da base, o critério de normalização usado e a ressalva da quebra de março de 2025. Se quiser usar os números já tratados, o Observatório do Drone no Brasil tem um bloco de como citar.
Conclusão
Dado aberto não é a mesma coisa que dado pronto. O SISANT é generoso: entrega o setor inteiro, atualizado todo dia, sem pedir nada em troca. Mas ele é um cadastro administrativo, não uma pesquisa estatística, e carrega as marcas de quem preencheu formulário com pressa. Quem respeita essas quatro armadilhas consegue tirar dali as melhores informações públicas que existem sobre drone no Brasil. Quem ignora publica um número errado com muita confiança.
Escrevo isto como piloto com cadastro ativo no SISANT que apura essa base a cada rodada de conteúdo. Os scripts que aplicam essas quatro correções são os mesmos que alimentam o Observatório do Drone no Brasil.
Leituras relacionadas para aprofundamento
- Armadilha 1 a fundo: a linha dos 250 gramas
- Armadilha 2 a fundo: o ranking real de modelos
- O drone de cada profissão, com os enxames separados
- Armadilha 4 a fundo: a série histórica de 4 anos
- O retrato geral da frota brasileira
- Observatório do Drone no Brasil: os números já tratados
Fontes consultadas
- ANAC, portal de dados abertos, pasta de drones cadastrados, arquivo corrente e histórico mensal. sistemas.anac.gov.br/dadosabertos.
- Base
SISANT.csvcom carimbo Atualizado em 2026-08-04, 177.631 cadastros vigentes, apurada por mim. - ANAC, RBAC nº 100, seção 100.301(c): validade de 24 meses do cadastro, que é o que permite derivar a data de emissão. Texto oficial.
- Os mesmos números atualizados no Observatório do Drone no Brasil.
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