
Atualizado em 19/09/2026
Toda enchente, todo desaparecimento na mata e todo deslizamento produzem a mesma mensagem na minha caixa: “tenho um drone com térmica, como ajudo?”. A resposta tem duas metades. A primeira é institucional: quem faz busca e resgate no Brasil são os Corpos de Bombeiros, a Defesa Civil e as polícias, e a lei do espaço aéreo dá a eles prioridade e um regime próprio de voo. A segunda é prática: existem portas para o civil entrar, como militar, como servidor, como voluntário ou como prestador, e cada uma tem regra. Contei no cadastro da ANAC quantos drones essas corporações já têm, li os artigos da ICA 100-40 que tratam do assunto e organizei o caminho.
Resposta direta: no cadastro da ANAC de 18/09/2026, os Corpos de Bombeiros têm 486 drones em 25 operadores e a Defesa Civil, 109 em 32; as Polícias Militares somam 2.081. Os modelos que dominam nos bombeiros são os térmicos: Mavic 3T, Mavic 2 Enterprise Advanced e Matrice 30. A ICA 100-40 (2026) trata bombeiros, Defesa Civil e segurança pública como Órgãos Especiais com necessidade de resposta imediata (art. 43), dá prioridade às suas operações sobre qualquer outra (art. 34), manda todo drone civil pousar quando eles chegam (art. 36) e permite a Operação Aérea Especial sem planejamento prévio, até 25 kg, em VLOS e até 120 m (art. 44), inclusive com aeronave vinculada ao órgão, que é a porta do voluntário. Para entrar: concurso de bombeiro militar e curso interno; Defesa Civil municipal; associação de voluntários reconhecida, que a Lei 12.608/2012 manda os municípios treinar (art. 8º, XV); bombeiro civil (Lei 11.901/2009) em empresa; ou prestador contratado pela prefeitura. Voar por conta própria no meio de uma operação não é ajuda: é o que o art. 36 proíbe.
Quem faz busca e resgate com drone hoje: os números do cadastro da ANAC
O SISANT é público e traz o nome do operador. Baixei o arquivo de 18 de setembro de 2026 e contei, pelo nome, as corporações: Corpos de Bombeiros Militares, 486 drones em 25 operadores distintos, com o CBM de Minas Gerais na frente (129), depois Bahia (47), Espírito Santo (33), Distrito Federal (31) e Rio de Janeiro (24); Defesa Civil, 109 drones em 32 operadores, liderada por Santa Catarina (35); Polícias Militares, 2.081 drones; Polícias Civis, 642; Polícia Federal, 420; PRF, 113; Guardas Municipais, 51. A contagem por nome subestima (há cadastros em nome de batalhão ou de unidade), mas a ordem de grandeza é essa.
Nos bombeiros, a lista de modelos conta a história do uso: Mavic 3T e M3T (128 unidades somando as grafias), Mavic 2 Enterprise Advanced (46), Matrice 30 (12). É drone com câmera térmica, holofote e alto-falante, feito para achar gente à noite e falar com ela. O que a térmica enxerga e o que ela não enxerga está em drone térmico no combate a queimadas e em drone com câmera térmica.
O que a ICA 100-40 diz: Órgãos Especiais, prioridade e o voo sem planejamento
A norma do DECEA tem um capítulo para isso. O art. 42 define Órgãos Especiais (Executivo, Legislativo, Judiciário e quem presta serviço essencial à vida, incluindo resposta a calamidades e emergência ambiental). O art. 43 lista os que têm necessidade de resposta imediata: Forças Armadas, Segurança Pública, Defesa Civil, Força Nacional, Guardas Municipais, Receita Federal, institutos de criminalística e medicina legal, inteligência de Estado e órgãos com poder de polícia administrativa; para ter esse status, o órgão precisa ser acreditado pelo DECEA (§ 1º e § 2º, com o processo em decea.mil.br/drone). O art. 34 dá às Operações Especiais de Segurança Pública e Defesa Civil prioridade sobre as demais operações de UA, e o art. 36 manda encerrar imediatamente qualquer voo autorizado quando se verifica a aproximação de aeronave tripulada ou de UA desses órgãos.

“Art. 44. A Operação Aérea Especial deve ser realizada: I – por Órgãos Especiais; ou II – por aeronave vinculada ao Órgão Especial. § 1º Além do previsto nos incisos I e II do caput, a operação deve atender aos seguintes requisitos: I – ocorrer em circunstância incomuns, geralmente associadas a situações de emergência ou a eventos inesperados; II – não permitir a realização de planejamento prévio; III – possuir PMD menor ou igual a 25 Kg; IV – operar em VLOS; e V – manter altura de até 400 pés (120 m) AGL.”
ICA 100-40 (2026), art. 44

O art. 45 abre a exceção que importa para busca em mata e em área alagada: o órgão acreditado pode ser autorizado a operar acima de 120 m ou em BVLOS, desde que em espaço aéreo segregado e mediante acordo operacional com o DECEA. E o inciso II do art. 44 é a porta do voluntário: a aeronave vinculada ao Órgão Especial. Não é o drone do voluntário voando por conta própria; é o drone dele, operando sob o comando e a responsabilidade do órgão, dentro da operação.
As cinco portas de entrada
1. Bombeiro militar. Concurso público estadual, curso de formação e, dentro da corporação, o curso de operador de aeronave remotamente pilotada. É a carreira com mais drones e mais missões reais, e o caminho está em drone no serviço público.
2. Defesa Civil. Órgão municipal ou estadual, com servidores de carreira e cargos de coordenação. A Lei 12.608/2012 põe nos municípios a execução da política de proteção e defesa civil (art. 8º) e o drone entrou como ferramenta de mapeamento de área de risco e de resposta, como mostrei em drone na prefeitura.
3. Voluntário em associação reconhecida. A mesma Lei 12.608 manda os municípios estimular a participação de associações de voluntários e promover o treinamento dessas associações para atuação conjunta (art. 8º, XV), e admite no SINPDEC as organizações comunitárias de caráter voluntário (art. 11, parágrafo único). É por aí que o drone do voluntário vira aeronave vinculada ao órgão: cadastro prévio na associação, treinamento com a Defesa Civil ou os bombeiros e acionamento pelo comando da operação.
4. Bombeiro civil. Profissão regulada pela Lei 11.901/2009, em empresas, shoppings, indústrias e eventos; algumas brigadas já operam drone em incêndio industrial e em busca em área de fábrica.
5. Prestador contratado. Prefeituras licitam serviço de drone para mapeamento de risco, vistoria pós-desastre e apoio a operações; o contrato passa pelo PNCP, e a base de preços está em drone na prefeitura.

O que o voluntário faz e o que só o órgão faz
A divisão é simples de lembrar. O órgão decide, coordena, fala com o DECEA, define área e altura, e responde pela operação. O voluntário vinculado executa o voo que lhe foi atribuído, na área e na altura definidas, com o equipamento que cadastrou, e entrega imagem e coordenada para o comando. Fora da operação, no dia a dia, ele treina, mantém o drone e o cadastro em dia e participa dos simulados. O que ele nunca faz: aparecer no local por conta própria, subir o drone no meio da operação de helicóptero, publicar imagem de vítima e prometer à família que vai achar alguém.
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ICA 100-40 (2026), arts. 34, 36 e 44
“Vou lá ajudar com meu drone” é o que o art. 36 proíbe
Toda operação de UA, mesmo autorizada, deve ser imediatamente encerrada quando se verifica a aproximação de aeronave tripulada ou de UA dos órgãos de segurança pública e Defesa Civil (ICA 100-40, art. 36). Na cena de um resgate há helicóptero, há o drone do bombeiro e há prioridade legal para eles. O civil que sobe o drone sozinho atrapalha a busca e responde por isso. Ajuda de verdade se organiza antes, na associação.

O que estudar e o que ter antes de se candidatar
Exame teórico da ANAC, SISANT e seguro em dia, que é o básico de qualquer piloto e o que a corporação confere primeiro. Térmica: saber ler uma imagem radiométrica, entender que a térmica não atravessa mata fechada nem água e que o horário decide o contraste. Navegação: coordenada, grade de busca, altura constante, registro de log. Rádio e procedimento: falar curto, repetir a ordem, pousar quando mandam. E condicionamento: busca é dia inteiro de pé, com mochila, em terreno ruim. O curso gratuito do governo, o CORPAS da Receita Federal na Escola Virtual.Gov, foi feito para o contexto de segurança pública e serve de base teórica, como descrevi em curso gratuito de drone do governo. As certificações que a corporação pede, em certificações que valem no currículo.
Modelos: contagem no SISANT de 18/09/2026
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Térmica (Mavic 3T ou M2EA são o padrão nas frotas), baterias para o dia, holofote e alto-falante quando o modelo aceita, log de voo exportável, rádio, GPS de mão e o cadastro em dia: SISANT válido, seguro, exame da ANAC. Sem o último item, o resto não entra na operação.
Perguntas frequentes
Quantos drones os bombeiros têm no Brasil?
Pelo nome do operador no SISANT de 18/09/2026, 486 drones em 25 Corpos de Bombeiros, com Minas Gerais na frente (129). A contagem por nome subestima, porque há cadastros em nome de unidade.
Posso levar meu drone para ajudar numa busca?
Só vinculado a um Órgão Especial (ICA 100-40, art. 44, II): cadastrado em associação ou no próprio órgão, treinado e acionado pelo comando. Por conta própria, o voo é comum e o art. 36 manda encerrar quando o órgão chega.
O que é Operação Aérea Especial?
A operação de Órgão Especial, ou de aeronave vinculada a ele, em circunstância incomum e sem planejamento prévio, com PMD até 25 kg, em VLOS e até 120 m (ICA 100-40, art. 44). Tem prioridade sobre as demais (art. 34).
Bombeiros podem voar acima de 120 m ou BVLOS na busca?
O órgão acreditado pelo DECEA pode ser autorizado a isso em espaço aéreo segregado e mediante acordo operacional (art. 45).
Como virar operador de drone nos bombeiros?
Concurso público estadual para bombeiro militar, curso de formação e, dentro da corporação, o curso interno de operador de aeronave remotamente pilotada.
Existe voluntário de Defesa Civil com drone?
Existe: a Lei 12.608/2012 manda os municípios estimular associações de voluntários e treiná-las para atuação conjunta (art. 8º, XV) e admite organizações voluntárias no SINPDEC (art. 11, parágrafo único).
Qual drone os bombeiros usam?
Térmicos: Mavic 3T e M3T (128 registros somando grafias), Mavic 2 Enterprise Advanced (46) e Matrice 30 (12), segundo o SISANT de 18/09/2026.
Câmera térmica acha pessoa na mata?
Acha o que está exposto e mais quente que o fundo; não atravessa copa fechada nem água, e o contraste depende do horário. Por isso a busca combina térmica, visual e equipe de solo.
O que é bombeiro civil?
Profissão regulada pela Lei 11.901/2009, exercida em empresas, shoppings, indústrias e eventos, diferente do bombeiro militar. Algumas brigadas já usam drone.
Prefeitura contrata piloto de drone para Defesa Civil?
Contrata serviço por licitação, registrada no PNCP, para mapeamento de área de risco, vistoria pós-desastre e apoio a operações.
Preciso do exame da ANAC para ser voluntário?
Voluntariado não é uso recreativo, então com drone acima de 250 g, sim: RBAC 100, seção 100.13(b), cobrado a partir de 1º/01/2027. Corporações conferem SISANT, seguro e exame antes de aceitar o vínculo.
Posso publicar as imagens da busca?
Não. Imagem de vítima e de área de busca é do órgão e da família; o voluntário entrega ao comando e não divulga.
Leituras relacionadas
- Drone no serviço público: polícia, bombeiros e Defesa Civil
- Drone térmico no combate a queimadas
- Drone na prefeitura: IPTU, obras e Defesa Civil
- Curso gratuito de drone do governo (CORPAS, Enap)
- Certificações que valem no currículo do piloto de drone
- Guia da ICA 100-40: o que muda no espaço aéreo
Fontes consultadas
- ICA 100-40 (DECEA), publicação oficial: arts. 34, 36, 42, 43, 44 e 45 (Órgãos Especiais e Operação Aérea Especial).
- DECEA, portal de drones: processo de acreditação de Órgão Especial (art. 43, § 2º).
- Lei 12.608/2012 (Política Nacional de Proteção e Defesa Civil): art. 8º, XV (associações de voluntários) e art. 11, parágrafo único (organizações voluntárias no SINPDEC).
- Lei 11.901/2009: profissão de bombeiro civil.
- ANAC, dados abertos do SISANT: arquivo de 18/09/2026, contagem própria por nome de operador e por modelo.
- RBAC 100 (Resolução ANAC 805/2026), PDF oficial: seções 100.13(b), 100.37 e 100.301.
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