
Atualizado em 20/10/2026
Gostou do conteúdo? Siga o Irlen Menezes no Google e veja mais dos nossos guias nas buscasFora da janela de defensivo, muito piloto de drone agrícola fica com a máquina parada. A semeadura é o serviço que preenche esse buraco: braquiária na soja antes da colheita, planta de cobertura na entressafra, pastagem em área onde trator não entra. Mas tem gente vendendo o serviço achando que, como não é veneno, não precisa de nada. Precisa. Li o que a Portaria 298 do MAPA, o RBAC 100 da ANAC, a ICA 100-40 do DECEA e a lei de sementes dizem sobre semear com drone, e fui atrás do que a pesquisa já mediu.
Por Irlen Menezes, cientista de dados formado pela PUC Minas, com experiência em legislação e regulação de drones no Brasil.
Resposta direta: para a lei, semear com drone é operação aeroagrícola, igual a pulverizar. A Portaria MAPA 298/2021 vale expressamente para sementes (art. 1º): o operador precisa de registro no MAPA, tem de manter 20 metros de povoações, moradias, animais e mananciais (art. 9º, I) e registrar cada semeadura (art. 10, V). O seguro de danos a terceiros é dispensado na aplicação de sementes sobre áreas desabitadas, em linha de visada até 120 m (RBAC 100, 100.37(a)(2)). Quem só aplica não está na lista de quem precisa do Renasem, mas quem vende a semente está (Lei 10.711, art. 8º). Uma meta-análise com 55 estudos mediu 15% a mais de soja depois de capim como a braquiária, efeito do capim e não do drone. Não achei preço público pago por hectare de semeadura com drone.
Semear com drone é aplicação aeroagrícola
A primeira dúvida é se a semeadura entra nas regras da pulverização. Entra, e não por interpretação. A Portaria MAPA 298/2021 estabelece regras para drones “destinadas à aplicação de agrotóxicos e afins, adjuvantes, fertilizantes, inoculantes, corretivos e sementes” (art. 1º). E o DECEA, na ICA 100-40, define operação aeroagrícola como a aplicação em voo de “fertilizantes, sementes, inseticidas, herbicidas e outros defensivos” (art. 7º, XXXVIII).

O que a Portaria 298 cobra de quem semeia
- Registro do operador: quem aplica, inclusive semente, precisa de registro no MAPA pelo SIPEAGRO (art. 3º), com aplicador formado no curso CAAR, drone regular na ANAC e, se for empresa, engenheiro agrônomo ou florestal como responsável técnico (arts. 4º e 5º). Como fazer está em registro no MAPA para pulverizar com drone.
- Distância de 20 metros: o art. 9º, I, cita sementes na lista e proíbe a aplicação a menos de 20 metros de povoações, cidades, vilas, bairros, moradias isoladas, agrupamentos de animais e mananciais de captação de água, quando não forem a área alvo.
- Drone abastecido não sobrevoa área povoada: art. 9º, III. Vale para o drone carregado de semente indo e voltando do ponto de recarga.
- Registro de cada aplicação: o art. 10 lista “semeadura” como tipo de atividade, ao lado de agrotóxico e fertilizante, com data, hora, área, dose, altura do voo e dados do tempo.
- Relatório mensal: a semeadura entra no relatório consolidado do mês, que vai ao MAPA até o dia 15 do mês seguinte (art. 11).

O auxiliar que fica em terra carregando o tanque também tem regra própria na portaria, explicada em auxiliar de piloto de drone agrícola.
Seguro e SARPAS: onde a semente tem tratamento de defensivo
O RBAC 100 exige seguro com cobertura de danos a terceiros em toda operação sob o regulamento, com duas exceções. A segunda inclui a semente pelo nome:
“(2) operações de UAS em VLOS ou EVLOS a até 120 metros (400 pés) AGL, de aplicação de agrotóxicos e afins, adjuvantes, fertilizantes, inoculantes, corretivos e sementes sobre áreas desabitadas.”
RBAC 100, item 100.37(a)(2)

Repare nas três condições juntas: linha de visada, até 120 metros e sobre área desabitada. Semeadura de pastagem perto de sede de fazenda ou de estrada movimentada pode sair da exceção. Aí o seguro volta, e o que ele cobre está em seguro de drone.
No espaço aéreo, a ICA 100-40 dá à semeadura o mesmo prazo curto da pulverização. A operação aeroagrícola na categoria específica, com drone acima de 25 kg, em linha de visada até 100 pés (30 m), sem cruzar área restrita ou zona de aeródromo e destinada à aplicação de “agrotóxicos e afins, adjuvantes, fertilizantes, inoculadores, corretivos e sementes sobre áreas desabitadas”, pode ser pedida no SARPAS com 30 minutos de antecedência (art. 57, § 1º, II). Sem esse enquadramento, drone acima de 25 kg na categoria específica pede oito dias corridos (art. 57, III).

Precisa de Renasem para semear com drone?
O Renasem é o registro nacional de quem mexe com semente. A Lei 10.711/2003 diz quem é obrigado a se inscrever:
“Art. 8º As pessoas físicas e jurídicas que exerçam as atividades de produção, beneficiamento, embalagem, armazenamento, análise, comércio, importação e exportação de sementes e mudas ficam obrigadas à inscrição no Renasem.”
Lei nº 10.711/2003, art. 8º

Aplicar não está na lista. Se o produtor compra a semente e você só faz o voo, o seu serviço é de aplicação, e o que vale é a Portaria 298. Se a sua empresa também vende a semente ao cliente, aí ela exerce comércio e entra na obrigação do art. 8º. Na dúvida sobre um caso concreto, consulte a superintendência do MAPA do seu estado antes de fechar o pacote com semente incluída.
Braquiária antes da soja: o que a pesquisa mediu
O argumento de venda da semeadura de capim é o ganho na soja seguinte, e aqui há número bom. Uma meta-análise publicada na revista Agronomy em 2026, assinada por pesquisadores do Instituto Federal Catarinense, da UTFPR, da Embrapa Cerrados e da Embrapa Solos, reuniu 55 estudos publicados até fevereiro de 2026, com ensaios de campo em 33 locais do Brasil.
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Os capins estudados são do gênero Urochloa, onde estão as braquiárias, e Megathyrsus maximus. Segundo o resumo do artigo, eles aumentaram a produtividade da soja em 15%, em média 515 kg por hectare, o que daria US$ 198 a mais por hectare. A saúde do solo também melhorou: atividade de arilsulfatase 35% maior, de beta-glicosidase 31%, carbono da biomassa microbiana 24% e carbono orgânico 11%.
Um cuidado na hora de usar esse número com cliente: o estudo mede o efeito do capim como cultura anterior, não o método de semeadura. Ele não diz que semear com drone dá 15% a mais. O que o drone oferece é a forma de colocar a semente na área, e a qualidade dessa distribuição precisa ser conferida no campo.
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Arroz e outras culturas: o que já foi testado
No arroz pré-germinado, um trabalho de conclusão de curso de Agronomia da UFSM, campus Frederico Westphalen, testou a semeadura com drone em 2023, com a cultivar IRGA 424. O que mudou entre os tratamentos foi a rotação do rotor do drone, de 250 a 1.250 rotações por minuto. A conclusão: rotações acima de 750 rpm afetaram a porcentagem de germinação e o vigor das sementes. É um estudo de graduação, com um só ensaio, mas a lição prática vale para qualquer semente sensível: a rotação do sistema de dispersão pode estragar a semente que você está jogando, então teste a regulagem antes.
Pesquisadores da UFGD e da Embrapa Agricultura Digital também têm um projeto, o SemearDigital, que prevê semear a lanço com um DJI Agras T30, numa área de 8 hectares em assentamento, capim-braquiária, espécies florestais nativas, milheto e trigo, e medir a emergência com imagens de drone. O resumo publicado em 2024 descreve o plano; ainda não traz resultado.
Do lado do equipamento, a referência é a ficha técnica do fabricante. No DJI Agras T50, o tanque de dispersão tem 75 litros, carga de até 50 kg, faixa de 8 metros e aceita grânulos secos de 0,5 a 5 mm. Antes de fechar com o cliente, confira se a semente cabe nessa faixa e faça um teste de distribuição. A comparação entre os modelos mais vendidos está em Agras T25 ou T50.

Quanto cobrar: o que não achei
Procurei preço público por hectare de semeadura com drone e não achei valor pago. O único edital que encontrei com esse serviço no PNCP, de um consórcio de municípios de Minas Gerais, estava suspenso na consulta e sem nenhum resultado. Valor de edital suspenso não é preço, então não vou publicar número.
O que dá para fazer é montar a sua conta com base no custo da operação, como no serviço de pulverização, em quanto custa pulverização com drone por hectare, e colocar no contrato quem fornece a semente, a taxa por hectare combinada e o que acontece se chover em cima da semeadura. As cláusulas estão em contrato de pulverização com drone. E o preço do equipamento, com o kit de dispersão de sólidos que as prefeituras compraram, está em quanto custa um drone agrícola.
Perguntas frequentes
Semear com drone precisa de registro no MAPA?
Precisa. A Portaria MAPA 298/2021 vale para aplicação de sementes (art. 1º), e o operador que faz aplicação com drone precisa de registro no SIPEAGRO (art. 3º).
Qual distância a semeadura com drone precisa respeitar?
20 metros de povoações, cidades, vilas, bairros, moradias isoladas, agrupamentos de animais e mananciais de captação de água que não sejam a área alvo (Portaria 298, art. 9º, I).
Semeadura com drone precisa de seguro?
O RBAC 100 dispensa o seguro de danos a terceiros na aplicação de sementes sobre áreas desabitadas, em linha de visada até 120 m (100.37(a)(2)). Fora dessas condições, o seguro é obrigatório.
Preciso de Renasem para semear com drone?
A Lei 10.711/2003 obriga ao Renasem quem produz, beneficia, embala, armazena, analisa, comercializa, importa ou exporta sementes (art. 8º). Só aplicar não está na lista. Se você também vende a semente, precisa.
Braquiária antes da soja aumenta a produtividade?
Uma meta-análise de 55 estudos em 33 locais, publicada na Agronomy em 2026, mediu 15% a mais de soja depois de capins como a braquiária, em média 515 kg por hectare. O estudo mede o capim, não o método de semeadura.
Quanto custa a semeadura com drone por hectare?
Não encontrei preço público pago. O único edital com o serviço no PNCP estava suspenso e sem resultado na consulta de outubro de 2026.
Leituras relacionadas
- Registro no MAPA para pulverizar com drone
- Quanto custa um drone agrícola
- Contrato de pulverização com drone
- Drone agrícola: guia completo
- DJI Agras T25 ou T50?
Fontes consultadas
- Portaria MAPA nº 298/2021 (DOU de 24/09/2021): arts. 1º, 3º a 5º, 9º, 10 e 11.
- RBAC 100 (ANAC): item 100.37(a)(2).
- ICA 100-40 (DECEA, 2026): art. 7º, XXXVIII, e art. 57, § 1º, II, e III.
- Lei nº 10.711/2003 (Planalto): arts. 2º e 8º.
- Barbosa, J. Z.; Poggere, G.; Vilela, L.; de Freitas, P. L.; Mendes, I. C. Deep-Rooted Tropical Grasses as Preceding Crops Boost Soil Health and Soybean Yield in Brazil: A Meta-Analysis. Agronomy, v. 16, n. 7, 751, 2026.
- Silva, M. da. Qualidade da semeadura de arroz pré-germinado com drone. TCC, UFSM Frederico Westphalen, 2023.
- Tetila, E. C.; da Silveira, F.; Barbedo, J. G. A. Avaliação da semeadura com drones para pastagens, espécies florestais e plantas de cobertura do solo em produções agrícolas familiares. Embrapa, 2024.
- DJI Agriculture, especificações do AGRAS T50: sistema de dispersão.
- PNCP, Consórcio Intermunicipal de Especialidades (MG), pregão 126/2025: situação suspensa, consulta em 05/10/2026.






