
Atualizado em 16/09/2026
O iFood entrega por drone, o Walmart entrega por drone, a DJI vende um drone de carga. Chega a pergunta do leitor: posso pegar o meu Mavic e entregar remédio na fazenda, ou montar um serviço de entrega no bairro? A resposta tem duas metades. O que o drone pode carregar está no RBAC 100 e é curto de explicar. Onde e como ele pode voar carregando é o que separa a fazenda do bairro, e é aí que quase toda ideia de delivery trava.
Resposta direta: carregar uma encomenda com drone não é proibido. O RBAC 100 proíbe o transporte de pessoas, animais e artigos perigosos do RBAC 175 (seção 100.19(a)), com exceções listadas, e não veda carga comum. O problema é a operação: entregar na cidade implica voar sobre pessoas e além da linha de visada, o que tira o voo da categoria aberta (100.5) e exige categoria específica, com projeto do drone autorizado, piloto habilitado, certificado de aeronavegabilidade e autorização operacional da ANAC, mais espaço aéreo segregado no DECEA. Drone autônomo, sem intervenção do piloto, não é autorizado (ICA 100-40, art. 19, § 2º; RBAC 100.19(c)). Entrega em VLOS, até 120 m, longe de terceiros e com carga não perigosa cabe na categoria aberta: é o caso da fazenda. A única empresa que percorreu a trilha inteira no país é a Speedbird Aero, que levou de abril de 2024 a março de 2026 para voar BVLOS sobre áreas de até 5.000 habitantes por km².
A resposta rápida: fazenda sim, bairro não (ainda)
O mapa mental é esse. A categoria aberta do RBAC 100 (seção 100.5) aceita a operação com peso em voo até 25 kg, em VLOS ou EVLOS, até 120 m e em áreas distantes de terceiros, com avaliação de risco quando houver gente a menos de 150 m. Uma entrega dentro da fazenda ou de um canteiro de obras, com o drone à vista, cabe ali. Uma entrega no bairro sai da visada e passa sobre gente que não sabe do voo: categoria específica, com tudo o que descrevi em BVLOS na prática.

O que o drone pode e não pode carregar
A seção 100.19(a) é a regra de carga. É proibido o transporte de pessoas, animais ou artigos perigosos referidos no RBAC 175, o regulamento de artigos perigosos da aviação civil. A proibição tem cinco exceções: lançamentos agrícolas, de controle de vetores, de combate a incêndio e afins; equipamentos eletrônicos com bateria de lítio necessária ao funcionamento e em uso durante o voo, como câmeras; artigos transportados por aeronaves de entidades controladas pelo Estado; itens exigidos a bordo pela aeronavegabilidade; e artigos transportados na categoria específica ou certificada de forma aceita pela ANAC, excluídos os de alta consequência e os proibidos em qualquer circunstância.
“(a) É proibido o transporte de pessoas, animais ou artigos perigosos referidos no RBAC nº 175.”
RBAC 100, seção 100.19(a)

Dois detalhes práticos. Remédio comum não é artigo perigoso; produto inflamável, aerossol, gás e bateria de lítio como carga são. E a categoria certificada (100.5(a)(3)) é o destino de quem quer transportar artigos perigosos com alto risco para terceiros, com certificado de tipo pelo RBAC 21 (100.33): é o mundo da aviação certificada, não do operador de drone.
Por que a entrega na cidade é categoria específica
Três exigências da categoria aberta caem ao mesmo tempo numa entrega urbana: o piloto perde a visada, o drone cruza sobre pessoas não envolvidas e a operação se repete em rota fixa, o que a ANAC trata como operação com risco a avaliar. Na categoria específica, a seção 100.103 abre dois caminhos: cenário padrão publicado pela ANAC ou avaliação de risco aceita com autorização operacional. Depois vêm a autorização de projeto do drone (100.105), o piloto com licença e habilitação específica ou piloto comercial com IFR (100.115), o certificado de aeronavegabilidade (100.201) e o COE quando a complexidade pedir.
E há a porta que o marketing tenta abrir: o drone que voa sozinho da loja até a casa. A ICA 100-40 diz no art. 19, § 2º, que as aeronaves não tripuladas autônomas não são objeto da norma e não estão autorizadas a acessar o espaço aéreo brasileiro; o RBAC 100.19(c) exige que a intervenção do piloto seja possível em qualquer fase do voo. Entrega legal é pilotada a distância, com alguém pronto para assumir.
Seu drone passaria numa fiscalização?
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“§ 2º As UA autônomas não são objeto desta regulamentação e não estão autorizadas a acessar o espaço aéreo brasileiro.”
ICA 100-40 (2026), art. 19, § 2º

O que já é possível: a trilha da Speedbird
A Speedbird Aero, de Franca (SP), é a operadora que percorreu a trilha inteira. Em abril de 2024 divulgou a autorização de projeto do DLV-2, com carga de até 6,5 kg e alcance BVLOS de até 24 km. Operou por rotas aprovadas uma a uma, com o iFood, e em 16 de março de 2026 recebeu da ANAC a autorização para voar BVLOS sobre áreas de até 5.000 habitantes por km², o que o setor leu como a passagem de aprovações por rota para operação escalável. O iFood somava cerca de 2.000 entregas por drone no ano, segundo o Unmanned Airspace.
O detalhe que decide tudo: o drone é da própria empresa, projetado para a autorização. Como o serviço funciona no dia a dia, com droneport e último trecho, está em entrega por drone do iFood; a versão americana, com Wing e Zipline, em entrega por drone do Walmart.

Se você quer entrar nesse mercado
- Comece pela fazenda, pelo canteiro e pelo condomínio rural: entrega em VLOS, na categoria aberta, com seguro, cadastro e SARPAS. É serviço real e legal hoje.
- Não compre drone de carga antes de saber se o fabricante fornece o que a seção 100.105 exige para autorizar o projeto.
- Para o bairro, procure operar com quem já tem a autorização, ou entre como piloto: a Speedbird e parceiros contratam operação, e a licença específica é a porta.
- Acompanhe a página de drones da ANAC: um cenário padrão para entrega mudaria o custo de entrada de uma vez.
- Trate a carga como carga aérea: lacre, peso conferido e nada do RBAC 175 a bordo.
RBAC 100, seção 100.5(a)(1)
Onde o dinheiro está hoje
Insumo entre talhões, peça para a colheitadeira parada, amostra de solo, medicamento no assentamento sem estrada: entregas curtas, em VLOS, onde o drone substitui uma hora de caminhonete. O bairro vem depois, e virá por quem tem aeronave própria autorizada.
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Perguntas frequentes
É proibido transportar carga com drone no Brasil?
Não. O RBAC 100 proíbe pessoas, animais e artigos perigosos do RBAC 175 (100.19(a)); carga comum é permitida, dentro do peso e da categoria da operação.
Posso entregar remédio na fazenda com um Mavic?
Em VLOS, até 120 m, longe de terceiros e com o drone cadastrado e segurado, sim, na categoria aberta. Remédio comum não é artigo perigoso.
Posso montar um delivery no meu bairro?
Não com drone de prateleira. Entrega urbana é BVLOS sobre pessoas: categoria específica, com projeto autorizado, piloto habilitado, CAVE e autorização operacional, mais espaço segregado no DECEA.
Drone autônomo pode fazer entregas?
Não. A ICA 100-40 (art. 19, § 2º) não autoriza aeronave autônoma, e o RBAC 100.19(c) exige que o piloto possa intervir em qualquer fase do voo.
Bateria de lítio pode ir como carga?
Como carga solta, é artigo perigoso e não pode na categoria aberta. A bateria de um equipamento em uso durante o voo, como câmera, é exceção (100.19(a)(1)(ii)).
Qual o peso máximo de carga?
O limite da categoria aberta é 25 kg de peso em voo, drone mais carga (100.5(a)(1)(i)). Acima disso, categoria específica.
Quem já tem autorização de entrega no Brasil?
A Speedbird Aero, com autorização de projeto do DLV-2 (2024) e, desde 16/03/2026, autorização para BVLOS sobre áreas de até 5.000 hab/km², operando com o iFood.
Preciso de SARPAS para entregar na fazenda?
Sim, como em qualquer voo (ICA 100-40, art. 19), com 30 minutos de antecedência na categoria aberta sem interseção com área restrita (art. 57, I).
O que é categoria certificada na entrega?
A que envolve artigos perigosos com alto risco para terceiros ou risco que não se mitiga sem certificação (100.5(a)(3)), com certificado de tipo pelo RBAC 21.
Entrega com drone precisa de seguro?
Sim. O seguro de danos a terceiros (RBAC 100.37) vale para toda operação, e a carga pede apólice própria.
O DJI FlyCart pode operar entrega no Brasil?
Só dentro do enquadramento: em VLOS e longe de terceiros, na aberta; para BVLOS urbano, precisa de projeto autorizado pela ANAC para a operação, o que depende do fabricante.
Quando a entrega urbana vai se popularizar?
Quando a ANAC publicar cenário padrão para entrega ou mais operadores concluírem a trilha da específica. Até lá, é mercado de poucas empresas com aeronave própria.
Leituras relacionadas
- Entrega por drone do iFood com a Speedbird: como funciona
- Entrega por drone do Walmart: como funciona
- BVLOS na prática: como conseguir autorização
- Categoria específica do RBAC 100
- Categoria certificada do RBAC 100
- DJI no Everest: entrega e mapeamento
- Quanto cobrar por um voo de drone
- Seguro de drone é obrigatório?
Fontes consultadas
- RBAC 100 (Resolução ANAC 805/2026), PDF oficial: seções 100.5, 100.19 (a, b, c, d), 100.33, 100.103, 100.105, 100.115, 100.201 e 100.37.
- RBAC 175, transporte de artigos perigosos em aeronaves civis: definição de artigo perigoso referida pelo RBAC 100.
- ICA 100-40 (DECEA), edição 2026, PDF oficial: art. 19 (§ 2º, aeronaves autônomas), art. 25 e art. 57. Canônica: publicacoes.decea.mil.br.
- Unmanned Airspace, 23/03/2026: autorização de 16/03/2026 (BVLOS até 5.000 hab/km²), cerca de 2.000 entregas do iFood no ano e rodada de quase US$ 6 milhões.
- MundoGEO, 22/04/2024: autorização de projeto do DLV-2, carga de até 6,5 kg e BVLOS de até 24 km.
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